25.2.12

DETRÁS DA ORELHA

É uma intenção parva a de nos quererem convencer que uma coisa boa está detrás da orelha. Desde logo porque, excluindo qualquer mutação genética, o sentido do paladar não está nas orelhas. E insistir no contrário apenas traz mais ignorância às cabeças confusas das nossas crianças ou dos concorrentes da Casa dos Segredos.

Seguidamente, ter seja o que for atrás da orelha revela muito pouca higiene, quer para a coisa em si, que pode apanhar alguma cera, quer para o ouvido que pode entupir. Já para não falar que, estando atrás da orelha, logo fora do campo de visão, é um exercício de adivinhação saber se a coisa lá está de facto ou não.

O rigor contextual também não é o melhor. Estando dois tipos a petiscar, diz um para o outro “epah, estes tremoços estão mesmo bons, não estão?”, ao que o outro responde, “Estão detrás da orelha”. Mas que parvoíce é esta, em que um tipo fala em tremoços e o outro responde em orelhas? Faça-se o simples teste do contraditório para verificar que esta expressão não é bi-unívoca, e portanto, não merecer credibilidade : “epah, estas orelhas de coentrada estão mesmo boas, não estão?”, ao que o outro responde, “Estão detrás dos tremoços”. Simplesmente patético.

DEITAR AS BARBAS DE MOLHO

Porque carga de água é que esta expressão é utilizada para traduzir cautela? Na verdade, o que o “sistema” esconde é que esta expressão é um convite à gerontofilia, ou seja, o abuso dos mais velhinhos.

Concretizando: para deitar as barbas de molho há que, primeiro, tê-las e, em segundo lugar, de um tamanho considerável para que se possam mergulhar no alguidar sem espetar também com as trombas no líquido. Ora umas barbas assim, tirando aquele benfiquista com um restaurante na Caparica, só as têm os velhos eremitas, os monges de Shaolin e um ou outro septuagenário avulso.

O perigo surge quando o avozinho coloca as barbas de molho, tendo portanto de se curvar sobre a bacia, logo, ficando em posição desfavorável, com a porta das traseiras à mercê de qualquer tarado. E esta situação pode ser um convite a uma grande amizade, mas nunca será uma posição de cautela, por muito que nos queiram enganar.

20.2.12

DEFENDER-SE COM UNHAS E DENTES

Utilizada frequentemente quando se pretende designar uma defesa forte, aguerrida, potencialmente viril, se virmos bem, designa apenas uma forma abichanada de defesa.

Quem geralmente se defende com as unhas e os dentes é a mulher (não raro acompanhados de puxões de cabelos e/ou gritinhos), pelo que nenhum macho que se preza se vai defender com unhadelas e dentadas. Homem que é homem tem, no máximo, uma unha saliente (a do dedo mindinho) que devido ao desvelo necessário para a manter, não serve para tarefas mais violentas do que tirar burriés da jaula, coçar as partes baixas ou tirar cera do orelhame.
Quanto aos dentes, assim de repente, a única forma que me ocorre para os utilizar em defesa seria em casos de moléstia sexual, onde a potencial vítima sorri, mostrando uma cremalheira completamente esboroada e com hálito de podridão superior, que faz fugir o agressor a sete pés.

Nestes tempos conturbados em que vivemos, uma actualização impõe-se, pelo que deveria alterar-se a expressão para “defender-se com ponta e mola” ou “defender-se com soqueira e moca de Rio Maior”.

19.2.12

DE MAIS A MAIS

À semelhança da anterior, esta expressão é de uma tão grande nulidade que, decerto, até está isenta de imposto. O correr das gerações deve com certeza ter-lhe feito perder palavras da versão original, porque a não ser num contexto do tipo “de Mais a Mais distam cerca de 10 kms”, não há forma de perceber isto...e mesmo assim, é preciso admitir que existam duas localidades com o nome Mais.

Mas o mais preocupante é que a utilização desta expressão visa substituir outra (Além do mais) que, só por si, também não quer dizer rigorosamente nada! Qualquer semelhança entre isto (uma vacuidade que substitui outra) e a legislação por vezes produzida na assembleia da república não pode ser mera coincidência. Deve haver mão de políticos nisto.

Não é preciso ser nenhum Platão nem nenhum Aristóteles, para saber empiricamente que além do mais, não existe nada. E se existe, será sempre mais do mesmo, porque se fosse menos, não estaria além do mais, mas sim aquém.

É tão simples que até dói! E de mais a mais, penso que não há mais nada a dizer sobre isto.

DAS DUAS, UMA

Esta expressão é tão vaga que será de incluir naquela categoria a que nós os académicos chamamos de “pois...”. De que duas estamos a falar? E porquê só duas, não poderão ser mais? De quais duas se fará a escolha? E porquê das duas só uma? Não podem ser as duas? Ou nenhuma? E se houver abstenção?

O problema é que toda esta vacuidade tem contornos filosóficos. Quer-se fazer crer que entre duas hipóteses, há sempre uma que é correcta e deve ser escolhida, pintando o mundo a preto e branco, em termos muito simplistas. Quem somos nós para dizer que uma opção é melhor do que outra? Uma opção é, de facto, melhor em si mesma, ou apenas o é enquanto imagem que dela concebemos? Nunca se esqueçam da alegoria da caverna, onde Platão nos ensinou a diferenciar entre a realidade e aquilo que vemos e imaginamos que é. Acredito que, tal como eu, possam existir no mundo duas ou três pessoas que não caíram a dormir nas aulas de filosofia, pelo que nos cabe a nós abrir os olhos da humanidade para estes embustes.

Está visto que na vida real o que há mais são tons cinzentos, nem carne nem peixe, não dá para optar assim tão linearmente. Tome-se, num exemplo rápido, o caso das eleições: quem olhar para o boletim de voto e disser “dos dois, um”, peca por defeito. Primeiro, porque eles são muito mais que dois e, segundo, porque todos juntos não valem um.

5.2.12

DAR UMA NO CRAVO, OUTRA NA FERRADURA

Longe de esclarecer seja o que for, esta expressão mais não faz do que levantar interrogações. Dar uma quê? E ao dar outra, é outra da mesma espécie da primeira ou de espécie diferente? De que cravo estamos a falar? Da flor, do instrumento musical ou do furúnculo sebáceo que surge na pele oleosa?

Não se poderá dar mais do que uma no cravo? Se for um cravo rijo, será que não aguenta duas? Se a ferradura levar uma em vez de outra, será que ela aguenta? Fará alguma diferença se for a ferradura direita ou a esquerda? E porquê dar uma no cravo se ele não fez mal a ninguém? Devemos apenas dar ao cravo e à ferradura, ou podemos distribuir por outros objectos? Estamos a falar de dar, na óptica que é melhor do que receber, ou apenas em dar por vingança ou porque não se quer?

Apenas com estes poucos exemplos se vê que dificilmente esta expressão nos leva a alguma conclusão, dada a sua falta de objectividade. O que apenas se pode inferir daqui é que quem dá uma, dá duas, e como não há duas sem três, alguém terá de levar com a terceira, sem ser o cravo nem a ferradura.

Dão-se alvíssaras a quem descobrir o quê.

DAR COM A LÍNGUA NOS DENTES

É desaconselhável utilizar esta expressão como sinónimo de delator ou queixinhas, porque na sua verdadeira essência, dar com a língua nos dentes não produz conversa, mas sim estalinhos.

Desde logo, excluindo o caso da linguagem gestual que permite falar sem abrir a boca, qualquer linguagem obriga a dar com a língua nos dentes para produzir sons. Em segundo lugar, se denunciar ou confessar um crime fosse dar com a língua nos dentes, e aplicando o princípio da proporcionalidade, então quanto maior a confissão, maior teria de ser a força da língua na dentadura. Por exemplo, imagine-se a dificuldade que Isaltino Morais teria em conservar a dentadura, caso fosse julgado em tribunais a sério. Igualmente como prova da falácia desta expressão, poderá ser apontado o caso de Bibi, que mesmo após todas aquelas confissões no julgamento da Casa Pia mantém a sua cremalheira em apreciáveis condições de manutenção.

Por último, devemos ainda lembrar que o dar com a língua nos dentes é uma atitude pouco educada, equiparada a pôr a língua de fora ou a fazer bolhas com a boca, própria de crianças de tenra idade ou de Nenucos vendidos no Natal. No entanto, dado que toda a regra tem a sua excepção, também o dar com a língua nos dentes pode ser um acto de prazer, conforme documenta a imagem anexa. Porém, não tomemos isto como norma.

28.1.12

DAR BARRACA

A incorrecção desta expressão reside num factor muito simples da teoria económica: ninguém dá barracas!
Aliás, o que muitas vezes sucede é que estas habitações provisórias de contraplacado e chapas de zinco nascem como cogumelos sempre que se adivinha um plano de realojamento, para que os seus donos possam depois ganhar direito a um T1 novinho nos arrabaldes. Nestes casos, é a barraca que dá...uma casa.

Outra incongruência, é pretender dar a esta expressão um sinónimo de fazer asneira. Está bem que dar uma barraca não será o supra-sumo do bom gosto em matéria de prendas (a não ser que se ofereça a barraca a um cão), mas também não é preciso ofender. Se o ofertado não gostar, que deite fora, o que conta é a intenção e mandam os bons princípios que é melhor dar do que receber.

Aproveita-se também aqui a oportunidade para esclarecer que, em termos fiscais, dar barracas não está sujeito a imposto sucessório (até porque este já nem existe) nem a IMT, o que pode constituir uma boa forma de fugir à tributação na transmissão de património imobiliário, por exemplo, constituindo uma fundação e dando-lhe barracas.
Mais informações, contactar o Sousa Cintra.

CUSTAR OS OLHOS DA CARA

Senhores! Acaso achais fazer algum sentido que custar os olhos da cara seja sinónimo de caro? Porquê? Só porque são dois?

Qualquer cirurgião plástico de vão de escada poderá confirmar que uma simples lipoaspiração do nalguedo, um lifting aos papos dos olhos, endireitar um nariz ou acertar um sorriso podem ser mais caros do que uma intervenção aos olhos.

A outro nível, existem, por exemplo, certas pinturas pós-modernas que, por custarem os olhos da cara, os donos, ao ficarem sem os ditos, não precisam de ver as aberrações que compraram, o que até pode ser benéfico. Já para não falar de, por exemplo, "Portrait Of A One Eyed Man" de Van Gogh, que também só têm um olho e não é nada barato! (peço desculpa por esta referência de cultura erudita completamente despropositada, mas bastante útil para os apontadores do Google me encaminharem mais visitantes).

O que faz ainda menos sentido nesta expressão, é especificar que se tratam dos olhos da cara. Porque mais caro do que estes, é o outro, que se situa na parte final das costas, em que por vezes certas coisas chegam a custar o dito e mais oito tostões...

CRUZES, CANHOTO!

Vários historiadores advogam que a origem desta expressão terá ocorrido quando, algures na Idade Média, um cangalheiro mui atarefado por via da epidemia conhecida como peste negra, se viu obrigado a contratar vários ajudantes para dar despacho ao serviço, entre os quais, um de apelido Canhoto.

Contam os escritos que, um dia, estando a carreta já cheia de corpos defuntos e preparando-se para partir para o enterramento, o cangalheiro chegou-se à porta da loja gritando que ainda lhe faltavam cousas.

“Pois que não, meu senhor – atendeu o rapaz que respondia por Canhoto – aparelhei vossa besta mui cedo e pois que já carreguei as pás, as cordas, as velas e outrossim os podres defuntos de vossa senhoria. Que poderá faltar ainda?”
Ao que o cangalheiro terá respondido, irado: “Cruzes, Canhoto!...”

Em que ponto perdido no tempo terá ocorrido a distorção do significado desta expressão, para o actual entendimento de dito afugentador de espírito maligno ou má-sorte, é coisa que se desconhece.