19.2.12

DAS DUAS, UMA

Esta expressão é tão vaga que será de incluir naquela categoria a que nós os académicos chamamos de “pois...”. De que duas estamos a falar? E porquê só duas, não poderão ser mais? De quais duas se fará a escolha? E porquê das duas só uma? Não podem ser as duas? Ou nenhuma? E se houver abstenção?

O problema é que toda esta vacuidade tem contornos filosóficos. Quer-se fazer crer que entre duas hipóteses, há sempre uma que é correcta e deve ser escolhida, pintando o mundo a preto e branco, em termos muito simplistas. Quem somos nós para dizer que uma opção é melhor do que outra? Uma opção é, de facto, melhor em si mesma, ou apenas o é enquanto imagem que dela concebemos? Nunca se esqueçam da alegoria da caverna, onde Platão nos ensinou a diferenciar entre a realidade e aquilo que vemos e imaginamos que é. Acredito que, tal como eu, possam existir no mundo duas ou três pessoas que não caíram a dormir nas aulas de filosofia, pelo que nos cabe a nós abrir os olhos da humanidade para estes embustes.

Está visto que na vida real o que há mais são tons cinzentos, nem carne nem peixe, não dá para optar assim tão linearmente. Tome-se, num exemplo rápido, o caso das eleições: quem olhar para o boletim de voto e disser “dos dois, um”, peca por defeito. Primeiro, porque eles são muito mais que dois e, segundo, porque todos juntos não valem um.

5.2.12

DAR UMA NO CRAVO, OUTRA NA FERRADURA

Longe de esclarecer seja o que for, esta expressão mais não faz do que levantar interrogações. Dar uma quê? E ao dar outra, é outra da mesma espécie da primeira ou de espécie diferente? De que cravo estamos a falar? Da flor, do instrumento musical ou do furúnculo sebáceo que surge na pele oleosa?

Não se poderá dar mais do que uma no cravo? Se for um cravo rijo, será que não aguenta duas? Se a ferradura levar uma em vez de outra, será que ela aguenta? Fará alguma diferença se for a ferradura direita ou a esquerda? E porquê dar uma no cravo se ele não fez mal a ninguém? Devemos apenas dar ao cravo e à ferradura, ou podemos distribuir por outros objectos? Estamos a falar de dar, na óptica que é melhor do que receber, ou apenas em dar por vingança ou porque não se quer?

Apenas com estes poucos exemplos se vê que dificilmente esta expressão nos leva a alguma conclusão, dada a sua falta de objectividade. O que apenas se pode inferir daqui é que quem dá uma, dá duas, e como não há duas sem três, alguém terá de levar com a terceira, sem ser o cravo nem a ferradura.

Dão-se alvíssaras a quem descobrir o quê.

DAR COM A LÍNGUA NOS DENTES

É desaconselhável utilizar esta expressão como sinónimo de delator ou queixinhas, porque na sua verdadeira essência, dar com a língua nos dentes não produz conversa, mas sim estalinhos.

Desde logo, excluindo o caso da linguagem gestual que permite falar sem abrir a boca, qualquer linguagem obriga a dar com a língua nos dentes para produzir sons. Em segundo lugar, se denunciar ou confessar um crime fosse dar com a língua nos dentes, e aplicando o princípio da proporcionalidade, então quanto maior a confissão, maior teria de ser a força da língua na dentadura. Por exemplo, imagine-se a dificuldade que Isaltino Morais teria em conservar a dentadura, caso fosse julgado em tribunais a sério. Igualmente como prova da falácia desta expressão, poderá ser apontado o caso de Bibi, que mesmo após todas aquelas confissões no julgamento da Casa Pia mantém a sua cremalheira em apreciáveis condições de manutenção.

Por último, devemos ainda lembrar que o dar com a língua nos dentes é uma atitude pouco educada, equiparada a pôr a língua de fora ou a fazer bolhas com a boca, própria de crianças de tenra idade ou de Nenucos vendidos no Natal. No entanto, dado que toda a regra tem a sua excepção, também o dar com a língua nos dentes pode ser um acto de prazer, conforme documenta a imagem anexa. Porém, não tomemos isto como norma.

28.1.12

DAR BARRACA

A incorrecção desta expressão reside num factor muito simples da teoria económica: ninguém dá barracas!
Aliás, o que muitas vezes sucede é que estas habitações provisórias de contraplacado e chapas de zinco nascem como cogumelos sempre que se adivinha um plano de realojamento, para que os seus donos possam depois ganhar direito a um T1 novinho nos arrabaldes. Nestes casos, é a barraca que dá...uma casa.

Outra incongruência, é pretender dar a esta expressão um sinónimo de fazer asneira. Está bem que dar uma barraca não será o supra-sumo do bom gosto em matéria de prendas (a não ser que se ofereça a barraca a um cão), mas também não é preciso ofender. Se o ofertado não gostar, que deite fora, o que conta é a intenção e mandam os bons princípios que é melhor dar do que receber.

Aproveita-se também aqui a oportunidade para esclarecer que, em termos fiscais, dar barracas não está sujeito a imposto sucessório (até porque este já nem existe) nem a IMT, o que pode constituir uma boa forma de fugir à tributação na transmissão de património imobiliário, por exemplo, constituindo uma fundação e dando-lhe barracas.
Mais informações, contactar o Sousa Cintra.

CUSTAR OS OLHOS DA CARA

Senhores! Acaso achais fazer algum sentido que custar os olhos da cara seja sinónimo de caro? Porquê? Só porque são dois?

Qualquer cirurgião plástico de vão de escada poderá confirmar que uma simples lipoaspiração do nalguedo, um lifting aos papos dos olhos, endireitar um nariz ou acertar um sorriso podem ser mais caros do que uma intervenção aos olhos.

A outro nível, existem, por exemplo, certas pinturas pós-modernas que, por custarem os olhos da cara, os donos, ao ficarem sem os ditos, não precisam de ver as aberrações que compraram, o que até pode ser benéfico. Já para não falar de, por exemplo, "Portrait Of A One Eyed Man" de Van Gogh, que também só têm um olho e não é nada barato! (peço desculpa por esta referência de cultura erudita completamente despropositada, mas bastante útil para os apontadores do Google me encaminharem mais visitantes).

O que faz ainda menos sentido nesta expressão, é especificar que se tratam dos olhos da cara. Porque mais caro do que estes, é o outro, que se situa na parte final das costas, em que por vezes certas coisas chegam a custar o dito e mais oito tostões...

CRUZES, CANHOTO!

Vários historiadores advogam que a origem desta expressão terá ocorrido quando, algures na Idade Média, um cangalheiro mui atarefado por via da epidemia conhecida como peste negra, se viu obrigado a contratar vários ajudantes para dar despacho ao serviço, entre os quais, um de apelido Canhoto.

Contam os escritos que, um dia, estando a carreta já cheia de corpos defuntos e preparando-se para partir para o enterramento, o cangalheiro chegou-se à porta da loja gritando que ainda lhe faltavam cousas.

“Pois que não, meu senhor – atendeu o rapaz que respondia por Canhoto – aparelhei vossa besta mui cedo e pois que já carreguei as pás, as cordas, as velas e outrossim os podres defuntos de vossa senhoria. Que poderá faltar ainda?”
Ao que o cangalheiro terá respondido, irado: “Cruzes, Canhoto!...”

Em que ponto perdido no tempo terá ocorrido a distorção do significado desta expressão, para o actual entendimento de dito afugentador de espírito maligno ou má-sorte, é coisa que se desconhece.

9.1.12

COR DE BURRO QUANDO FOGE

Não houve, até hoje, alguma investigação credível do National Geographic a comprovar que este mamífero da família dos equídeos, de orelhas compridas, crina curta e geralmente de pelagem cinzenta ou acastanhada, mudasse a sua cor quando em movimento acelerado de fuga.
Então, porque raio surgiu esta disparatada expressão para designar uma cor esquisita? Em última análise, se o burro fosse suficientemente rápido, digamos, da velocidade da luz, a sua cor seriam todas, porque os diferentes comprimentos de radiação electromagnética visível convergiriam para reflectir todas as cores em conjunto e simultâneamente. Caro leitor, não é vergonha nenhuma confessar que nunca pensou em tal, mas eu também não me quero alargar em detalhes do sórdido mundo da física.

Na prática, o burro quando foge tem uma cor cinzento-acastanhada, no máximo, a atirar para o descorado se passar muito depressa em frente aos olhos do observador. Ora isto está muito longe da cor indefinida que nos querem fazer acreditar que esta expressão indica. Com que fins sórdidos, com que objectivos esconsos se divulgam estas ideias? Para já não existem respostas, mas isso não fará esmorecer a nossa luta em busca da verdade.

2.1.12

CONTAR COM O OVO NO CÚ DA GALINHA

Perante esta expressão, não se percebe afinal onde está o sinónimo de precipitação. Então se a saída do ovo é coisa certa, qual é o problema? Acaso depois de ele lá estar é suposto poder sair por outro lado?

É um facto que estando o ovo no cú da galinha e sendo esse um sítio deveras complicado para efectuar inspecções mais profundas, não sabemos quanto tempo demorará ele a sair. Mas sendo também um facto, científicamente comprovado, que as galinhas não sofrem de prisão de ventre, a conclusão é óbvia: o ovo vai sair por ali e a curto prazo, daí que entendo que contar com ele no referido local não é, em si mesmo, nenhum sinal de precipitação.

Outra imprecisão de ordem morfológico-anatómica é a de que o ovo, na fase de pré-saída, não está tecnicamente no cú da galinha. Se é para manter expressões sem qualquer sentido, ao menos que sejamos tecnicamente apurados, pelo que se deveria dizer “contar com o ovo no canal expulsatório pré-esfíncter, que conduz ao orifício natural traseiro do corpo, que dá pelo nome de ânus”.

COMPRAR GATO POR LEBRE

Caso de discriminação rácica evidente, que não se entende como ainda persiste na cultura popular nestes tempos do politicamente correcto. Desde logo, ao equivaler esta expressão a uma trapaça, deixa sub-entendido que as lebres são superiores aos gatos.

Pergunta-se, justamente, em quê?, já que tirando o facto de acompanharem bem com feijão branco ou serem deliciosas confeccionadas à caçador, elas não têm nenhum argumento para serem consideradas superiores aos gatos. Pelo contrário, os gatos são mais higiénicos, podem ser ensinados a obrar numa caixa de areia e ajudam os humanos a despachar a praga dos ratos.
Não conheço nenhuma lebre que faça isso, já que a sua única ocupação na vida, além de comer e dormir, é aumentar, com a colaboração da fêmea, a prole em mais dez ou quinze membros, com apenas dez segundos de esforço.

Mesmo na cultura é comprovado que esta máxima não tem razão de ser: o Garfield, o gato maltês ou o Gato das Botas são figuras que dispensam apresentações, ao passo que a lebre mais famosa, apenas o é por ter perdido uma corrida com uma tartaruga...e apenas porque assim nos contou La Fontaine, já que nem a Sport TV 4 se dignou a referenciar fosse o que fosse.

COMO QUEM NÃO QUER A COISA

Antes de mais, há que determinar de que coisa estamos a falar. Pode até dar-se o caso de que quem não quer a coisa, esteja a proceder bem. Por outro lado, podemos estar em presença de uma coisa valiosa que convém querer, pelo que enquanto não for esclarecida devidamente a natureza e a identidade da coisa em questão, se torna por demais imaturo e inconsciente fazer tal afirmação de forma categórica.
Importa também saber o que quer, quem não quer a coisa. Quer o quê? Coisa nenhuma? Mas a coisa nenhuma não é, em si mesmo, uma coisa? E ser como quem não quer a coisa, é ser como? Porque ao não querer a coisa, pode-se não querer de muitas e variadas formas e é preciso saber como, para podermos então ser como quem não quer a coisa. Acham isto complicado? Porque pensam que tanta gente se dedica à física quântica?

Se no meio disto tudo, o caro leitor, como quem não quer a coisa, já perdeu o fio à meada sobre o que aqui se discute, então o melhor é recomeçar do princípio. E no princípio, era o verbo...que não é uma coisa qualquer.

23.12.11

COMO O TEMPO VOA!

Podendo reconhecer-lhe alguma utilidade como ajuda para pôr fim a conversas chatas, sou obrigado a apontar-lhe o defeito mais comum das expressões idiomáticas – a falta de substância. Ora se o tempo voa, será condição sine-qua-non que tenha asas. Mas quem é que pode dizer que viu o tempo a voar? Por acaso já alguém viu alguém a apontar o céu, dizendo “Será um pássaro? Será um avião? Será o Super-Homem? Não, é o tempo a voar!”. Simplesmente ridículo.

A ser verdade, não quero sequer pensar nas consequências espaço-temporais que seriam aquelas épocas em que o espaço aéreo fica encerrado por causa das cinzas vulcânicas da Islândia, o que obrigaria o tempo a parar. Descontando a potencial vantagem para o Manoel de Oliveira, ao não envelhecer mais um pouco, não vejo outro benefício em parar o tempo.

Para evitar estes mal entendidos, há também quem diga que o tempo corre. Discordo novamente. O tempo não é um animal, logo não tem pernas. Se fosse, decerto existiria algo como “a caça ao tempo”, em espaços de caça associativa, onde se paga bem para entrar. Como não é, fiquemo-nos pela caça à lebre, essa sim, com pernas para correr, o que ainda assim não a impede de ir parar ao tacho, confeccionada à caçador.

Dito isto, que fique assente de uma vez por todas: o tempo não voa, não corre, não nada! Vamos ser exactos naquilo que dizemos às crianças, por favor.

COMO MANDA O FIGURINO

Incessantes buscas nos arquivos de identificação civil nunca permitiram descobrir quem será esse tal de Figurino, cujas ordens são sempre as mais correctas possível e um exemplo a seguir. À falta de identificação, considerar-se-á o figurino não ser uma pessoa, mas sim um posto hierárquico?

Contudo, uma vista de olhos à escala de patentes também não permite identificar qualquer figurino cujas ordens devam ser seguidas. Numa tentativa de, ainda assim, conseguir dar alguma consistência a esta expressão (a boa vontade em época natalícia vem sempre ao de cima), consideremos o seu sentido figurado, isto é, figura que representa o traje da moda. Ora, desde logo, a moda muda, no mínimo, com novas colecções a cada seis meses, pelo que, estar conforme o figurino, não pareça ser algo de muito duradouro.

Em segundo lugar, não esta provado que o que o figurino manda deva ser seguido – penso que as calças à boca de sino, os tops que mostram umbigos celulíticos e os sapatos com saltos compensados semelhantes a barcaças de dragagem do rio Douro, serão exemplos elucidativos de figurinos que não devem ser seguidos.
Assim sendo, não podem dizer que não tentámos, mas factos são factos: aniquile-se mais esta expressão.

COMO UM BOI A OLHAR PARA UM PALÁCIO

Carece de validade científica a hipótese de que os bois olhem para os palácios de forma diferente da dos seres humanos. Retirando, evidentemente, questões de estroboscopia.

Cada vez mais, hoje em dia, se comprova que o boi não fica especado a olhar para coisa nenhuma – basta ver qualquer tourada para constatar que, se um boi não se espanta com um homem aos pulinhos à sua frente, vestindo umas calças dois números abaixo do recomendável, geralmente de tons rosados ou avermelhados e que o chama de “toiro lindo” numa atitude deveras abichanada, também não será defronte de um simples palácio que irá ficar de boca aberta.

Além de não ter fundamento, esta expressão peca também por partir do princípio de que um palácio é para admirar. Nada mais errado, pois há palácios que não apresentam no seu interior ou exterior qualquer motivo de admiração – penso que ao apontar o caso do palácio de S.Bento, me será dispensável apresentar mais exemplos, sendo por isso sequer necessário referir os palácios constituídos por torres de marfim que alguns constroem para morar toda a vida. Até porque esses, quem fica a olhar para eles não são os bois, mas sim os camelos.

18.12.11

COMER COMO UM ABADE

Diz a lenda que, durante o reinado de Dª Urraca da Saxónia, foi fundada na abadia de Westminster uma escola de boas maneiras à mesa, por se sentir grande necessidade em educar a nobreza frequentadora do paço real, no que toca ao seu comportamento à mesa, o qual poderíamos designar pelo termo técnico de "javardo".


Ministrado pelos abades mais instruídos do reino, o curso foi granjeando fama tal que em pouco tempo surgiu esta expressão que significava, basicamente, colocar os garfos à esquerda do prato, sendo o do peixe o primeiro a contar de fora; as facas à direita, sendo a da carne a de dentro; as colheres ao cimo, sendo a de sopa a primeira e a de sobremesa a última; não tocar nos alimentos com as mãos, a não ser para descascar camarões e chupar entrecosto.

Estes comportamentos, ironizados por bardos bêbados em cantigas de escárnio e maldizer, foram mal entendidos pelo povo iletrado, ignorante e, em alguns casos, estúpido, como só povo sabe ser, o qual, deturpando a expressão, passou a designar “comer com um abade” como sendo comer muito e alarvemente. Um crasso erro de interpretação.

COM UMA MÃO À FRENTE E OUTRA ATRÁS

Se isto fosse, de facto, sinónimo de pobreza, então, por analogia, os ricos e o Américo Amorim teriam de possuir mais de duas mãos, para cobrirem não só a frente e a traseira, mas também os outros lados das suas adiposas e grossas banhas abdominais de porcos capitalistas, exploradores da classe operária que trabalha de sol a sol, tentando ganhar o pão que o diabo amassou, para poder minorar alguma da fome dos seus filhos...


Peço desculpa por esta deriva esquerdista.
Retomemos. Também não consta que exista alguém com uma mão à frente e outra atrás, o que seria uma aberração anatómica. As mãos existem nos lados e se algum apêndice existe na frente não tem, seguramente, cinco dedos. Apenas um.

Outra questão: que o pobre tenha uma mão à frente para esconder a vergonha na cara ou para pedir esmola, ainda se percebe. Agora, para que raio quer ele uma mão atrás? Para fazer figas? Para fazer sinais a alguém? Para vigiar a porta das traseiras? Era bom que as entidades competentes esclarecessem de vez estas questões, porque o país está numa situação crítica e não pode continuar a perder tempo com indefinições e faltas de esclarecimento que apenas perturbam a produtividade nacional.
Produtividade, diga-se, que está aos níveis em que está exactamente pela quantidade de mãos à frente e outras atrás que andam por aí.

COM SANGUE NA GUELRA

Se determinado indivíduo tiver sangue no olho, no nariz, no artelho ou na unha do indicador, isso é um sinal de valentia? Não.

Então porque diabo o há-de ser se tiver sangue na guelra? Desde logo, excluindo a hipótese de misturas de ADN, um tipo não pode ter guelras. Antigamente havia o Homem da Atlântida, que nos tempos livres também entrava no Dallas, mas isso não conta. Donde se conclui que, para ser valente, só sendo um peixe. E se ele tem sangue na guelra, das duas uma: ou já não é fresco, ou bateu nas rochas quando foi pescado e está todo pisado, não cumprindo os mínimos exigíveis pela ASAE.


Em qualquer dos casos, não se vislumbra qualquer valentia. Eu acho, é a minha opinião, pode haver outras, que estamos perante outro erro de escrita, que se tem estupidamente perpetuado. Acredito que, na sua forma original, esta expressão dizia “com sangue, na guerra”, para designar a forma valente e galharda como os desprotegidos soldados honravam o seu reino nas batalhas medievais.
E se depois desta explicação continuar o uso absurdo desta expressão agora em voga, lavo daí as minhas mãos, porque esta cena do sangue é bastante pegajosa.

9.10.11

COM PILHAS DE GRAÇA

Surgida por invenção do sr Voltaire, esta expressão está totalmente desajustada no tempo. Na sua forma original, a pilha era algo de semelhante ao que hoje identificamos como uma bateria de automóvel, pelo que, ter pilhas de graça era sinónimo de ter grandes quantidades de piada concentradas num volume tipo tijolo.

Ora, devido à evolução dos processos de fabrico (para a Teoria da Produção, ver Adam Smith, que eu agora não tenho tempo) e dos coelhos da Duracell, as pilhas foram diminuindo de tamanho, tornando-se portáteis, alcalinas, etc, e hoje a pilha pode ser algo de tão pequeno como uma daquelas teclas de telemóvel onde apenas se consegue acertar com a unhaca do dedo mindinho. Conclusão, dizer que algo tem pilhas de graça pode, racionalmente, não ser nenhum elogio e significar que não se tem piada nenhuma.

Hoje, à expressão “pilhas de graça” não se reserva mais do que o triste papel de slogan publicitário para campanhas publicitárias de marcas de pilhas, o que é um destino inglório para qualquer expressão. Já para não falar que, mesmo em promoção, elas nunca são de graça.
Costuma dizer o povo "A graça da mulher pode mais que a força do homem". Mas o que sabe o geralmente macambúzio povo sobre graça, se o seu nível geral não vai além do Badaró ou dos Malucos do Riso?.
Porque defendemos dignidade na morte para evitar o sofrimento, aqui se subscreve a favor da abolição pura e simples desta triste expressão.

COISAS DO ARCO DA VELHA

Eis uma expressão estúpida que tem como sinónimo outra expressão estúpida, ou seja, coisas mais velhas do que a minha avó. Posta de parte a hipótese de, tecnicamente, se poder ser avó aos 24 anos não sendo, portanto, muito velha, procuremos saber o que são coisas do arco da velha.

Primeiro, temos o arco. Não sendo o da rua Augusta ou o de Trajano, em Roma, ambos bastante velhos, nem o arco-íris, que julgo não ter dono, novo ou velho, apenas me ocorre que o arco da velha possa ser a sua coluna vertebral, pois geralmente as velhinhas quase tocam com o nariz no chão, fazendo as suas costas um arco, vulgo, marreca. Assim sendo, que coisas podem ser essas, as do arco da velha, senão os bicos de papagaio?

Outras questões há para esclarecer: trata-se de um arco aberto ou fechado? Porque se for um arco fechado, então trata-se de um círculo. E porque é que o arco tem coisas? Não existem arcos vazios? Será que os estúpidos criadores desta expressão não se estariam a referir a arcas, essas sim, que guardam coisas tipo gelados da Olá e assim?

Parece-me no entanto óbvio, que, querendo a velha guardar coisas de valor, nunca as esconderia num arco. Ou bem que o faria num bolso das imensas saias, saiotes, combinações e cullotes que geralmente envergam, ou, quem sabe em casos mais marotos, naqueles sítios onde ninguém de mente sadia teria coragem para procurar. Donde posso concluir, que as coisas do arco da velha, a existirem, não deverão ser de valor, pois tudo o que as velhas têm de valor está geralmente debaixo dos colchões sendo apenas entregue aos senhores bem vestidos que lá vão a casa avisar que a segurança social precisa de trocar todas as notas de euros por outro modelo.

E, como nota de rodapé e vago pretensiosismo cultural, se, como diz Cormac McCarthy, este país não é para velhos, então claramente também não é para as suas coisas, do arco ou de outro qualquer sítio, que ainda por cima devem cheirar a bafio.

CHOVER SOBRE O MOLHADO

Expressão facilmente enquadrável na categoria “expressões-patetas-que-vêm-não-se-sabe-de-onde-e-se-usam-sem-saber-porquê”. Meditemos: em que é que “chover no molhado” é mais significativo do que “secar o que está seco”, para designar algo que é recorrente e que não vale a pena?

Tome-se o exemplo da inundação. Tecnicamente, uma cheia é uma repetição ad eternum de chover no molhado e é falso que isto não leve a lado nenhum: leva à cheia! E a cheia leva as coisas dali para fora, a boiar. Há, portanto, uma mudança significativa quer no espaço (dali para fora), quer no tempo (é preciso um ror de tempo para voltar a enxugar tudo).

Logo, quando a mulher diz “Estou farta de mandar o meu Antunes baixar o tampo da sanita quando vai à retrete, mas é chover no molhado...”, ela não está a malhar no seu homem, mas sim a reforçar-nos a ideia que, após tanto chover no molhado, o Antunes passou a fechar sempre o tampo da sanita...inclusivé, antes de a utilizar. E isso, é de louvar.

18.9.11

CHOVE QUE DEUS A DÁ

Até que seja comprovadamente desmentido, acredito que a maior parte das expressões idiomáticas foram criadas pela escola de pensamento de monsieur La Palisse. Só pode!
Pois quem, senão Deus, poderia dar a chuva? Entenda-se aqui “Deus” como posto hierárquico, podendo ele ser ocupado por Budha, Maomé, Are Krishna, Apolo ou qualquer outro candidato com as devidas qualificações pré-Bolonha.

Segundo a boa velha escola de economia clássica, se a chuva fosse algo de valor, não se dava, vendia-se. Ora sendo desnecessário provar que a chuva é boa (quanto mais não seja no nabal, enquanto faz sol na eira), então se alguém dá alguma coisa com valor, esse alguém é um magnânimo benfeitor sempre disposto a ajudar o próximo e, nos dias que correm, apenas Deus preenche os requisitos para assim ser considerado.

Além disso, “dar” também não é bem o termo mais correcto, porque como bem sabe quem já estudou o ciclo da água na escola primária (felizmente, muito poucos), a chuva irá regressar lá acima por via da evaporação do mar, dos rios e de grandes concentrações de água como a albufeira do Alqueva ou o Orçamento de Estado. Portanto, quando se percebe que quem dá, já está na mira de o receber de volta, passa imediatamente de magnânimo benfeitor a besta egocêntrica, num processo similar aos dos treinadores de futebol. Conclusão: usar esta expressão é o mesmo que falar, só para não estar calado.
E tenho dito.