23.12.11

COMO UM BOI A OLHAR PARA UM PALÁCIO

Carece de validade científica a hipótese de que os bois olhem para os palácios de forma diferente da dos seres humanos. Retirando, evidentemente, questões de estroboscopia.

Cada vez mais, hoje em dia, se comprova que o boi não fica especado a olhar para coisa nenhuma – basta ver qualquer tourada para constatar que, se um boi não se espanta com um homem aos pulinhos à sua frente, vestindo umas calças dois números abaixo do recomendável, geralmente de tons rosados ou avermelhados e que o chama de “toiro lindo” numa atitude deveras abichanada, também não será defronte de um simples palácio que irá ficar de boca aberta.

Além de não ter fundamento, esta expressão peca também por partir do princípio de que um palácio é para admirar. Nada mais errado, pois há palácios que não apresentam no seu interior ou exterior qualquer motivo de admiração – penso que ao apontar o caso do palácio de S.Bento, me será dispensável apresentar mais exemplos, sendo por isso sequer necessário referir os palácios constituídos por torres de marfim que alguns constroem para morar toda a vida. Até porque esses, quem fica a olhar para eles não são os bois, mas sim os camelos.

18.12.11

COMER COMO UM ABADE

Diz a lenda que, durante o reinado de Dª Urraca da Saxónia, foi fundada na abadia de Westminster uma escola de boas maneiras à mesa, por se sentir grande necessidade em educar a nobreza frequentadora do paço real, no que toca ao seu comportamento à mesa, o qual poderíamos designar pelo termo técnico de "javardo".


Ministrado pelos abades mais instruídos do reino, o curso foi granjeando fama tal que em pouco tempo surgiu esta expressão que significava, basicamente, colocar os garfos à esquerda do prato, sendo o do peixe o primeiro a contar de fora; as facas à direita, sendo a da carne a de dentro; as colheres ao cimo, sendo a de sopa a primeira e a de sobremesa a última; não tocar nos alimentos com as mãos, a não ser para descascar camarões e chupar entrecosto.

Estes comportamentos, ironizados por bardos bêbados em cantigas de escárnio e maldizer, foram mal entendidos pelo povo iletrado, ignorante e, em alguns casos, estúpido, como só povo sabe ser, o qual, deturpando a expressão, passou a designar “comer com um abade” como sendo comer muito e alarvemente. Um crasso erro de interpretação.

COM UMA MÃO À FRENTE E OUTRA ATRÁS

Se isto fosse, de facto, sinónimo de pobreza, então, por analogia, os ricos e o Américo Amorim teriam de possuir mais de duas mãos, para cobrirem não só a frente e a traseira, mas também os outros lados das suas adiposas e grossas banhas abdominais de porcos capitalistas, exploradores da classe operária que trabalha de sol a sol, tentando ganhar o pão que o diabo amassou, para poder minorar alguma da fome dos seus filhos...


Peço desculpa por esta deriva esquerdista.
Retomemos. Também não consta que exista alguém com uma mão à frente e outra atrás, o que seria uma aberração anatómica. As mãos existem nos lados e se algum apêndice existe na frente não tem, seguramente, cinco dedos. Apenas um.

Outra questão: que o pobre tenha uma mão à frente para esconder a vergonha na cara ou para pedir esmola, ainda se percebe. Agora, para que raio quer ele uma mão atrás? Para fazer figas? Para fazer sinais a alguém? Para vigiar a porta das traseiras? Era bom que as entidades competentes esclarecessem de vez estas questões, porque o país está numa situação crítica e não pode continuar a perder tempo com indefinições e faltas de esclarecimento que apenas perturbam a produtividade nacional.
Produtividade, diga-se, que está aos níveis em que está exactamente pela quantidade de mãos à frente e outras atrás que andam por aí.

COM SANGUE NA GUELRA

Se determinado indivíduo tiver sangue no olho, no nariz, no artelho ou na unha do indicador, isso é um sinal de valentia? Não.

Então porque diabo o há-de ser se tiver sangue na guelra? Desde logo, excluindo a hipótese de misturas de ADN, um tipo não pode ter guelras. Antigamente havia o Homem da Atlântida, que nos tempos livres também entrava no Dallas, mas isso não conta. Donde se conclui que, para ser valente, só sendo um peixe. E se ele tem sangue na guelra, das duas uma: ou já não é fresco, ou bateu nas rochas quando foi pescado e está todo pisado, não cumprindo os mínimos exigíveis pela ASAE.


Em qualquer dos casos, não se vislumbra qualquer valentia. Eu acho, é a minha opinião, pode haver outras, que estamos perante outro erro de escrita, que se tem estupidamente perpetuado. Acredito que, na sua forma original, esta expressão dizia “com sangue, na guerra”, para designar a forma valente e galharda como os desprotegidos soldados honravam o seu reino nas batalhas medievais.
E se depois desta explicação continuar o uso absurdo desta expressão agora em voga, lavo daí as minhas mãos, porque esta cena do sangue é bastante pegajosa.

9.10.11

COM PILHAS DE GRAÇA

Surgida por invenção do sr Voltaire, esta expressão está totalmente desajustada no tempo. Na sua forma original, a pilha era algo de semelhante ao que hoje identificamos como uma bateria de automóvel, pelo que, ter pilhas de graça era sinónimo de ter grandes quantidades de piada concentradas num volume tipo tijolo.

Ora, devido à evolução dos processos de fabrico (para a Teoria da Produção, ver Adam Smith, que eu agora não tenho tempo) e dos coelhos da Duracell, as pilhas foram diminuindo de tamanho, tornando-se portáteis, alcalinas, etc, e hoje a pilha pode ser algo de tão pequeno como uma daquelas teclas de telemóvel onde apenas se consegue acertar com a unhaca do dedo mindinho. Conclusão, dizer que algo tem pilhas de graça pode, racionalmente, não ser nenhum elogio e significar que não se tem piada nenhuma.

Hoje, à expressão “pilhas de graça” não se reserva mais do que o triste papel de slogan publicitário para campanhas publicitárias de marcas de pilhas, o que é um destino inglório para qualquer expressão. Já para não falar que, mesmo em promoção, elas nunca são de graça.
Costuma dizer o povo "A graça da mulher pode mais que a força do homem". Mas o que sabe o geralmente macambúzio povo sobre graça, se o seu nível geral não vai além do Badaró ou dos Malucos do Riso?.
Porque defendemos dignidade na morte para evitar o sofrimento, aqui se subscreve a favor da abolição pura e simples desta triste expressão.

COISAS DO ARCO DA VELHA

Eis uma expressão estúpida que tem como sinónimo outra expressão estúpida, ou seja, coisas mais velhas do que a minha avó. Posta de parte a hipótese de, tecnicamente, se poder ser avó aos 24 anos não sendo, portanto, muito velha, procuremos saber o que são coisas do arco da velha.

Primeiro, temos o arco. Não sendo o da rua Augusta ou o de Trajano, em Roma, ambos bastante velhos, nem o arco-íris, que julgo não ter dono, novo ou velho, apenas me ocorre que o arco da velha possa ser a sua coluna vertebral, pois geralmente as velhinhas quase tocam com o nariz no chão, fazendo as suas costas um arco, vulgo, marreca. Assim sendo, que coisas podem ser essas, as do arco da velha, senão os bicos de papagaio?

Outras questões há para esclarecer: trata-se de um arco aberto ou fechado? Porque se for um arco fechado, então trata-se de um círculo. E porque é que o arco tem coisas? Não existem arcos vazios? Será que os estúpidos criadores desta expressão não se estariam a referir a arcas, essas sim, que guardam coisas tipo gelados da Olá e assim?

Parece-me no entanto óbvio, que, querendo a velha guardar coisas de valor, nunca as esconderia num arco. Ou bem que o faria num bolso das imensas saias, saiotes, combinações e cullotes que geralmente envergam, ou, quem sabe em casos mais marotos, naqueles sítios onde ninguém de mente sadia teria coragem para procurar. Donde posso concluir, que as coisas do arco da velha, a existirem, não deverão ser de valor, pois tudo o que as velhas têm de valor está geralmente debaixo dos colchões sendo apenas entregue aos senhores bem vestidos que lá vão a casa avisar que a segurança social precisa de trocar todas as notas de euros por outro modelo.

E, como nota de rodapé e vago pretensiosismo cultural, se, como diz Cormac McCarthy, este país não é para velhos, então claramente também não é para as suas coisas, do arco ou de outro qualquer sítio, que ainda por cima devem cheirar a bafio.

CHOVER SOBRE O MOLHADO

Expressão facilmente enquadrável na categoria “expressões-patetas-que-vêm-não-se-sabe-de-onde-e-se-usam-sem-saber-porquê”. Meditemos: em que é que “chover no molhado” é mais significativo do que “secar o que está seco”, para designar algo que é recorrente e que não vale a pena?

Tome-se o exemplo da inundação. Tecnicamente, uma cheia é uma repetição ad eternum de chover no molhado e é falso que isto não leve a lado nenhum: leva à cheia! E a cheia leva as coisas dali para fora, a boiar. Há, portanto, uma mudança significativa quer no espaço (dali para fora), quer no tempo (é preciso um ror de tempo para voltar a enxugar tudo).

Logo, quando a mulher diz “Estou farta de mandar o meu Antunes baixar o tampo da sanita quando vai à retrete, mas é chover no molhado...”, ela não está a malhar no seu homem, mas sim a reforçar-nos a ideia que, após tanto chover no molhado, o Antunes passou a fechar sempre o tampo da sanita...inclusivé, antes de a utilizar. E isso, é de louvar.

18.9.11

CHOVE QUE DEUS A DÁ

Até que seja comprovadamente desmentido, acredito que a maior parte das expressões idiomáticas foram criadas pela escola de pensamento de monsieur La Palisse. Só pode!
Pois quem, senão Deus, poderia dar a chuva? Entenda-se aqui “Deus” como posto hierárquico, podendo ele ser ocupado por Budha, Maomé, Are Krishna, Apolo ou qualquer outro candidato com as devidas qualificações pré-Bolonha.

Segundo a boa velha escola de economia clássica, se a chuva fosse algo de valor, não se dava, vendia-se. Ora sendo desnecessário provar que a chuva é boa (quanto mais não seja no nabal, enquanto faz sol na eira), então se alguém dá alguma coisa com valor, esse alguém é um magnânimo benfeitor sempre disposto a ajudar o próximo e, nos dias que correm, apenas Deus preenche os requisitos para assim ser considerado.

Além disso, “dar” também não é bem o termo mais correcto, porque como bem sabe quem já estudou o ciclo da água na escola primária (felizmente, muito poucos), a chuva irá regressar lá acima por via da evaporação do mar, dos rios e de grandes concentrações de água como a albufeira do Alqueva ou o Orçamento de Estado. Portanto, quando se percebe que quem dá, já está na mira de o receber de volta, passa imediatamente de magnânimo benfeitor a besta egocêntrica, num processo similar aos dos treinadores de futebol. Conclusão: usar esta expressão é o mesmo que falar, só para não estar calado.
E tenho dito.

CHORAR LÁGRIMAS DE CROCODILO

Crocodilo é macho e macho que é macho não chora. Ponto final.
Que imagem de respeitabilidade conseguirá passar um crocodilo que não é capaz de suster as lágrimas? Não colhem as teorias de que poderão ser conjuntivites ou irritação provocada pelos fungos das águas do pântano, porque, a bem da verdade, um crocodilo que chora ou não se dá ao respeito ou é uma crocodila.

Segundo ponto: acreditemos na conjuntivite. Se as lágrimas existem e são reais, não se percebe porque diabo a expressão designa falsidade. Ou talvez se perceba: se um crocodilo não chora, é altamente provável que uma crocodila chore e, tal como qualquer fêmea, chore por qualquer razão sem fundamento, desde o crocodilo que não lhe liga porque prefere ver o benfica na televisão, até ao choro forçado para que lhe comprem mais uma mala ou uns sapatos, quem sabe, se de pele de crocodilo...

Ainda assim, se fosse um facto que os crocodilos choram falsamente, acho muito estranho a Lacoste nunca se ter pronunciado sobre o assunto, insistindo na imagem feliz do crocodilo a rir.

CHEGAR LÁ PARA AS QUINHENTAS

Começaram por ser “lojas dos trezentos”, onde qualquer bugiganga, do pacote de palitos ao serviço de porcelana made in China custava trezentos paus. Depois, por via da conversão monetária, passaram a “lojas de euro e meio” ou, mais libertinamente, “lojas de preço certo”. Hoje, face à desregrada concorrência já são “lojas de euro e meio e outros preços” que, ao fim e ao cabo, pode ser qualquer coisa.

Esta conversa despropositada tem, contudo, o propósito de colocar as coisas em perspectiva – ou seja, tudo é relativo. Porque é que chegar para lá das quinhentas significa chegar tarde? Se compararmos com chegar às mil, não estaremos a chegar cedo?

E já agora: chegar lá prás quinhentas quê? Horas? Nesse caso chegaria às oito da noite do vigésimo primeiro dia após a expressão ser dita, o que também não é assim tão tarde. Faz sentido? Não. E é apenas mais uma prova em como, basta raciocinar com um pouquinho de inteligência para se perceber a completa disfuncionalidade de todas as bacoradas que por aí circulam. Certamente, bem mais de quinhentas.