26.6.11

CABEÇA DE ALHO CHOCHO

Não perdi ainda a esperança de, um dia, haver alguém que me explique o sentido depreciativo desta expressão.

Isto porque o chocho tanto pode ser um beijo (e não conheço alhos que se beijem), como pode ter o sentido figurativo de insípido, adoentado ou sem préstimo. Ora, coisa que o alho nunca será é insípido e quanto ao alho adoentado, todos temos os nossos dias.
Conceda-se então que o chocho seja oco, sem sumo ou sem préstimo, contudo, os alhos, e mais especificamente a sua cabeça (que, ao fim e ao cabo é quase todo o seu corpo) têm direito à sua dignidade e não podem continuar a ser enxovalhados desta maneira! Chocho ou viçoso, o alho tem direito a uma existência condigna com a sua condição, de cabeça erguida e, se necessário, mostrando os dentes a quem o ofende. Não esqueçamos nunca que o alho é aquilo que o bacalhau quer, conforme demonstrado pelo filósofo contemporâneo Saúl.

Banir esta expressão é mostrar o cartão vermelho à intolerância e à discriminação com base no sexo, na cor, na religião ou no estado da cabeça do alho.

BORRAR A PINTURA

Mais tarde ou mais cedo teria de vir a expressão de cariz escatológico tão ao gosto do nosso povo, por definição, vulgar.

Não seria bastante para designar um falhanço, se se dissesse que determinado sujeito tinha desfocado a fotografia? Partido a escultura? Riscado o manuscrito? Desafinado o instrumento?...é que nem sequer se colocou a hipótese de ele ter misturado mal as cores ou ter dado uma pincelada ao lado!...Não, ele tinha logo de borrar a pintura!!
Em nome da decência, da educação dos nossos jovens que são o futuro do amanhã e mais não sei quê, em nome do respeito (que é bonito e eu gosto), daqui se apela a todas as autoridades deste país e, nomeadamente, a quem de direito, que proíba de imediato o uso desta expressão, substituindo-a por algo equivalente e também de fácil entendimento, como “sujar com matéria fecal a representação efectuada pelo pintor”.

13.6.11

BOA COMO O MILHO

Para começar, temos logo um grave erro de concordância em língua portuguesa, pois não se pode dizer que alguém é boa (adjectivo feminino) como o milho (substantivo masculino)...a não ser, claro, que estejamos a falar de um hermafrodita, mas mesmo aí eu sugeria que se dissesse “boa como a massaroca”.

Em segundo lugar, estabelece-se, discutivelmente, que o milho é bom. Será bom para quem gosta, como as galinhas ou assim, porque fora isso...a não set que milho seja usado na acepção de pilim, graveto, cacau, caroço. Aí sim, milho é bom e toda a gente gosta.

Há também um elemento gradativo algo confuso. Ser boa como o milho é ser muito boa, suficientemente boa ou minimamente boa? Porque se o milho for, de facto, bom, não será contudo a quinta essência dos sabores, pelo que haverá paladares acima e abaixo dele.
Exemplo: se uma for tão boa como o milho e outra tão boa como o óleo de fígado de bacalhau, a primeira ganha claramente. No entanto, se a primeira for tão boa como o milho e a segunda tão boa como os ovos moles de Aveiro, já tenho dúvidas que não seja a segunda a ganhar.

5.6.11

BATER NO CEGUINHO

Desde logo, bater em ceguinhos, aleijadinhos, tetraplégicos, adeptos do FCP e outros diminuídos em geral é sinal de pouca humanidade e um acto socialmente censurável, com excepção dos adeptos do FCP, onde é perfeitamente tolerável que se bata. Muito.

Segundo, esta frase é altamente humilhante para quem a profere: “prontos, já precebi, não batas mais no ceguinho” é assumir uma condição de invisual nada lisonjeira e tanto mais grave se quem a proferir for um árbitro. No fundo, é o assumir daquilo que já muita gente sabe, ou seja, que os árbitros não vêem um boi à frente ou um penalti a favor do Benfica.

Terceiro ponto, esta expressão deve também ser banida porque ao ser tão específica, leva a crer que o mal não está em bater, mas sim em bater no ceguinho, pelo que se poderá continuar a aviar porrada de três em pipa desde que o oponente tenha todas as dioptrias correctas! E se a isto juntarmos que também não se deve bater em quem tem óculos...

BAIXAR A BOLINHA

Alguma vez passaria pela cabeça de um avançado pedir ao seu colega que lhe fez um cruzamento demasiado alto que, para a próxima, tenha mais respeito? Pois...a ideia inversa pelos vistos passou pela cabeça de alguém, para ter inventado que para manter o respeito, há que baixar a bolinha!

Facilmente se vê que isto não faz sentido.
Se o pedido for feito a um elemento do sexo feminino, as únicas bolas susceptíveis de se baixar situam-se ao nível peitoral, sendo que o seu descaimento, além de altamente inestético e revelador de idade avançada, provocarão também menos respeito, portanto, estaríamos numa proposição contraditória.
Se estivermos a falar de um espécime masculino, baixar a bola, ou melhor, as bolas (estamos perante um sujeito plural) apenas acontece em momentos de grande perigo ou susto, em que é vulgar dizer-se que as ditas possam cair ao chão.

Fora isso, é suposto que as mesmas estejam firmemente seguras ao seu suporte, embora possam abanar. Mas como se diz que tropeçar não é cair, em princípio, abanar também não.

AS PAREDES TÊM OUVIDOS

A desfaçatez com que se afirmam estas bestialidades é,de facto, assombrosa. A verdade é que isto não passa de uma aldrabice que se prega às crianças, vá-se lá saber porquê, igual a tantas outras, como a história do papão ou do velho do saco.

Se o objectivo é fazê-las falar mais baixo, então a táctica não é boa, pois leva-as a sussurrar e , lá diz o povo, quem cochicha o seu rabo espicha. Conclusão, estamos a criar uma geração de rabudos!

Por acaso os brilhantes inventores desta mentira nunca pensaram que se as paredes tivessem ouvidos, os pintores não poderiam usar tinta d'água porque as trinchas escorregariam na cera? Se as paredes tivessem ouvidos, não deveria a Sonotone ter no seu catálogo algum tipo de aparelho para ajudar a audição das paredes mais velhas?

E, já agora, as paredes têm ouvidos para quê? Nunca ninguém ouviu dizer que elas tivessem boca, pois não? Então para que querem elas os ouvidos se depois não podem contar as conversas que ouvem? Perguntem às mulheres e elas saber-vos-ão elucidar o que estou a dizer.

Exige-se o cabal esclarecimento da opinião pública: se as paredes têm ouvidos, onde é que eles estão? São aqueles buracos que por vezes se vêem nos rodapés?

8.5.11

ARMAR-SE EM CARAPAU DE CORRIDA

Mas quem é que já viu um carapau a correr? Onde? Quem fabrica o material desportivo para essas corrida? A Robalook? A Sardidas?
Ok, por facilidade de raciocínio vamos imaginar que estamos a falar de corridas sub-aquáticas. Deduz-se que o carapau de corrida é um atleta, um herói dos tempos da mediatização. Então porque é que a Eurosport não transmite nenhuma corrida de carapaus? Em que pistas (ou será, postas?) se realizam? Quem dita as regras e homologa o campeonato' é tudo à balda?

Outra questão: se há carapaus de corrida, quer dizer que também os há em versão lenta? E assim sendo, teremos carapaus em velocidade de caracol, mais conhecidos por carapol?

Claro que admitir que existem corridas sub-aquáticas de carapaus dá todo um novo entendimento às disciplinas do atletismo de fundo e meio-fundo: as primeiras, abaixo dos 5000 metros e as segundas a meio caminho entre a profundidade do défice orçamental (muito, muito fundo) e a profundidade de pensamento de uma top model (muito, muito a boiar).

AREIA DEMAIS PARA A TUA CAMIONETA

Usa-se vulgarmente para designar a incapacidade de compreensão, o que, a meu ver, está mal, porque o problema pode até nem estar na areia mas sim na camioneta, possivelmente devido a uma falta de investimento que potencie a capacidade carga ou à falta de manutenção que degrade a suspensão de maneira a tornar impossível o transporte daquela carga.
Ou pode ser uma questão de peso. A areia molhada torna-se mais pesada e portanto, excede a tonelagem admitida pelo código da estrada.

Mais uma vez se coloca a questão – o que faz nascer uma expressão destas e não outras, tão válidas e equivalentes como: isto é estrume demais para a minha carroça, isto é lixo demais para o meu contentor, isto é vinho demais para a minha pipa ou isto é dera demais para os meus ouvidos?

Derradeira prova de coerência de uma expressão – a comutatividade. Se funcionar em sentido inverso, isto é, se dissermos o que é suposto a expressão significar, sem utilizar a frase-feita e mesmo assim nos compreenderem, é credível.
Alguém acredita que o camionista, estando no areeiro a carregar o camião e vendo o atrelado a deitar por fora, vá dizer “A minha compreensão já não alcança esta matéria”?
Duvido.

1.5.11

AQUI HÁ GATO

Qualquer pessoa minimamente dotada de dois ou mais neurónios agrupados aos pares, já se terá interrogado sobre o porquê desta máxima, perante uma desconfiança.

Sigamos este raciocínio: a curiosidade matou o gato, se há curiosidade é porque não se sabe algo, se não se sabe está instalado o mistério, se há mistério então desconfia-se, se se desconfia, aqui há gato! Corolário: o gato morreu, e aqui há gato. Em que ficamos?

Conceda-se que o gato seja um animal mais misterioso do que os outros. Mas também o Tyranossauros-Rex o era, e lá por isso não consta de nenhuma destas parvoíces que o povo costuma passar de geração em geração. Será por já estar extinto?

Veja-se então o caso de animais misteriosos ainda existentes, como a lesma ou a mosca varejeira. Será que tão simpáticas criaturas serão indignas de servir para um chavão, ao contrário do gato? Responda quem souber, mas eu acho que dizer que “aqui há varejeira” quando se desconfia de algo, seria bem mais elucidativo.

AQUI É QUE A PORCA TORCE O RABO

Para pôr esta questão em pratos limpos, há que responder a duas questões fundamentais: porque torce a porca o rabo e porque tem de ser aqui?

Em relação à primeira questão, não seria de supor que a suína criatura tivesse o dito já torcido à nascença? Pois se é de todos sabido que aquela imitação de saca-rolhas apensa à parte posterior de uma porca faz parte do seu corpo ainda antes de ser porca, ou seja, na fase de leitão!

Há ainda o pormenor, não dispiciendo, de estarmos a falar da cauda, não do rabo – um rabo torcido, além de inestético, acarreta com certeza problemas de obstipação da tripa.

Em relação à segunda questão, o facto de ter de ser aqui e não noutro sítio, introduz um elemento valorativo no acto de torcer o rabo. Fica a ideia que, neste ponto, o que importa não são os rabos, mas o sítio onde eles são torcidos. Enfim, opiniões...