5.6.11

BAIXAR A BOLINHA

Alguma vez passaria pela cabeça de um avançado pedir ao seu colega que lhe fez um cruzamento demasiado alto que, para a próxima, tenha mais respeito? Pois...a ideia inversa pelos vistos passou pela cabeça de alguém, para ter inventado que para manter o respeito, há que baixar a bolinha!

Facilmente se vê que isto não faz sentido.
Se o pedido for feito a um elemento do sexo feminino, as únicas bolas susceptíveis de se baixar situam-se ao nível peitoral, sendo que o seu descaimento, além de altamente inestético e revelador de idade avançada, provocarão também menos respeito, portanto, estaríamos numa proposição contraditória.
Se estivermos a falar de um espécime masculino, baixar a bola, ou melhor, as bolas (estamos perante um sujeito plural) apenas acontece em momentos de grande perigo ou susto, em que é vulgar dizer-se que as ditas possam cair ao chão.

Fora isso, é suposto que as mesmas estejam firmemente seguras ao seu suporte, embora possam abanar. Mas como se diz que tropeçar não é cair, em princípio, abanar também não.

AS PAREDES TÊM OUVIDOS

A desfaçatez com que se afirmam estas bestialidades é,de facto, assombrosa. A verdade é que isto não passa de uma aldrabice que se prega às crianças, vá-se lá saber porquê, igual a tantas outras, como a história do papão ou do velho do saco.

Se o objectivo é fazê-las falar mais baixo, então a táctica não é boa, pois leva-as a sussurrar e , lá diz o povo, quem cochicha o seu rabo espicha. Conclusão, estamos a criar uma geração de rabudos!

Por acaso os brilhantes inventores desta mentira nunca pensaram que se as paredes tivessem ouvidos, os pintores não poderiam usar tinta d'água porque as trinchas escorregariam na cera? Se as paredes tivessem ouvidos, não deveria a Sonotone ter no seu catálogo algum tipo de aparelho para ajudar a audição das paredes mais velhas?

E, já agora, as paredes têm ouvidos para quê? Nunca ninguém ouviu dizer que elas tivessem boca, pois não? Então para que querem elas os ouvidos se depois não podem contar as conversas que ouvem? Perguntem às mulheres e elas saber-vos-ão elucidar o que estou a dizer.

Exige-se o cabal esclarecimento da opinião pública: se as paredes têm ouvidos, onde é que eles estão? São aqueles buracos que por vezes se vêem nos rodapés?

8.5.11

ARMAR-SE EM CARAPAU DE CORRIDA

Mas quem é que já viu um carapau a correr? Onde? Quem fabrica o material desportivo para essas corrida? A Robalook? A Sardidas?
Ok, por facilidade de raciocínio vamos imaginar que estamos a falar de corridas sub-aquáticas. Deduz-se que o carapau de corrida é um atleta, um herói dos tempos da mediatização. Então porque é que a Eurosport não transmite nenhuma corrida de carapaus? Em que pistas (ou será, postas?) se realizam? Quem dita as regras e homologa o campeonato' é tudo à balda?

Outra questão: se há carapaus de corrida, quer dizer que também os há em versão lenta? E assim sendo, teremos carapaus em velocidade de caracol, mais conhecidos por carapol?

Claro que admitir que existem corridas sub-aquáticas de carapaus dá todo um novo entendimento às disciplinas do atletismo de fundo e meio-fundo: as primeiras, abaixo dos 5000 metros e as segundas a meio caminho entre a profundidade do défice orçamental (muito, muito fundo) e a profundidade de pensamento de uma top model (muito, muito a boiar).

AREIA DEMAIS PARA A TUA CAMIONETA

Usa-se vulgarmente para designar a incapacidade de compreensão, o que, a meu ver, está mal, porque o problema pode até nem estar na areia mas sim na camioneta, possivelmente devido a uma falta de investimento que potencie a capacidade carga ou à falta de manutenção que degrade a suspensão de maneira a tornar impossível o transporte daquela carga.
Ou pode ser uma questão de peso. A areia molhada torna-se mais pesada e portanto, excede a tonelagem admitida pelo código da estrada.

Mais uma vez se coloca a questão – o que faz nascer uma expressão destas e não outras, tão válidas e equivalentes como: isto é estrume demais para a minha carroça, isto é lixo demais para o meu contentor, isto é vinho demais para a minha pipa ou isto é dera demais para os meus ouvidos?

Derradeira prova de coerência de uma expressão – a comutatividade. Se funcionar em sentido inverso, isto é, se dissermos o que é suposto a expressão significar, sem utilizar a frase-feita e mesmo assim nos compreenderem, é credível.
Alguém acredita que o camionista, estando no areeiro a carregar o camião e vendo o atrelado a deitar por fora, vá dizer “A minha compreensão já não alcança esta matéria”?
Duvido.

1.5.11

AQUI HÁ GATO

Qualquer pessoa minimamente dotada de dois ou mais neurónios agrupados aos pares, já se terá interrogado sobre o porquê desta máxima, perante uma desconfiança.

Sigamos este raciocínio: a curiosidade matou o gato, se há curiosidade é porque não se sabe algo, se não se sabe está instalado o mistério, se há mistério então desconfia-se, se se desconfia, aqui há gato! Corolário: o gato morreu, e aqui há gato. Em que ficamos?

Conceda-se que o gato seja um animal mais misterioso do que os outros. Mas também o Tyranossauros-Rex o era, e lá por isso não consta de nenhuma destas parvoíces que o povo costuma passar de geração em geração. Será por já estar extinto?

Veja-se então o caso de animais misteriosos ainda existentes, como a lesma ou a mosca varejeira. Será que tão simpáticas criaturas serão indignas de servir para um chavão, ao contrário do gato? Responda quem souber, mas eu acho que dizer que “aqui há varejeira” quando se desconfia de algo, seria bem mais elucidativo.

AQUI É QUE A PORCA TORCE O RABO

Para pôr esta questão em pratos limpos, há que responder a duas questões fundamentais: porque torce a porca o rabo e porque tem de ser aqui?

Em relação à primeira questão, não seria de supor que a suína criatura tivesse o dito já torcido à nascença? Pois se é de todos sabido que aquela imitação de saca-rolhas apensa à parte posterior de uma porca faz parte do seu corpo ainda antes de ser porca, ou seja, na fase de leitão!

Há ainda o pormenor, não dispiciendo, de estarmos a falar da cauda, não do rabo – um rabo torcido, além de inestético, acarreta com certeza problemas de obstipação da tripa.

Em relação à segunda questão, o facto de ter de ser aqui e não noutro sítio, introduz um elemento valorativo no acto de torcer o rabo. Fica a ideia que, neste ponto, o que importa não são os rabos, mas o sítio onde eles são torcidos. Enfim, opiniões...

ANDAS A ARRANJAR LENHA PARA TE QUEIMAR

Esta expressão é de bradar aos céus perante tantas inconsistências.

Primeiro, a lenha não se arranja, recolhe-se. E para a recolher vai-se à mata, sendo que não se pode lá queimar nada porque as queimadas são proibidas (excepto, no verão, se a mata ficar em sítio urbanizável com vista para o mar).

Segundo, há inúmeras formas de um tipo se queimar, não sendo a imolação com lenha a primeira a ocorrer. Excepto no tempo da Inquisição mas, mesmo aí, não era o imolado a juntar lenha, já que a generosa instituição tratava de toda a logística necessária.

Terceiro, perante o facto que determinado sujeito anda a arranjar lenha, extrapolar que ele se queira queimar parece-me abusivo – mesmo um pirómano gosta de ver outros a arder, não ele. Um suicida resolve as coisas rapidamente, não se mata com escaldões. Um masoquista porventura preferirá queimaduras e assadelas em sítios específicos, coisa que não é possível com uma fogueira.

Para que serve então esta máxima? Não faço ideia, mas sem dúvida é boa para queimar.

17.4.11

ANDAR COM OS TARECOS ÀS COSTAS

Há-de o leitor concordar comigo que esta é das expressões mais disparatadas inventadas pelo povo. Mas quem é que anda com os tarecos às costas? Pois se até as gatas que os dão à luz, preferem transportá-los na boca!...

Outro pormenor – duvido que alguém vá, voluntariamente, colocar os tarecos às costas sabendo que ao mínimo desequilíbrio os sacanas disparam aquelas unhas afiadas, cravando-as nas costas de um tipo, só para não caírem. E depois quando o sujeito chega a casa, tira a roupa para o banho, vem a mulher (já se sabe como elas desconfiam de tudo) e vai logo perguntar que arranhões são aqueles nas costas, o que é que “andastes” a fazer na rua até às tantas, que baton é aquele no colarinho da camisa, etc, etc... E o inocente apenas tem para dizer que andou com os tarecos às costas! Qual é a mulher que acredita?

Claro que se os tarecos forem tarecas e houver baton no colarinho, é bom nem sequer começar a argumentação...

ANDAR COM A PULGA ATRÁS DA ORELHA

Devo abrir aqui uma excepção para dizer que concordo com esta expressão, no sentido de que se está desconfiado. Estais espantados? Eu explico.

De facto, se se anda com uma pulga atrás da orelha, é sinal para desconfiar...quanto mais não seja, desconfia-se que o tipo não toma banho ou que mora num sítio imundo.
A razão de incluir aqui esta máxima é apenas pela sensação de intimidade que dela ressalta, isto é, dizer que o João anda com a pulga atrás da orelha é como dizer que o Joaquim anda com a Marisa atrás dele, ou seja, deixa logo perceber grandes intimidades entre o João e a pulga. Pouco higiénicas, de resto.

De pouco adianta trocar o verbo andar pelo verbo estar, como alguns fazem, porque se o João está com a pulga atrás da orelha, pode deduzir-se que estará com ela por interesse. E que raio de interesse pode um tipo ter numa pulga? Ainda por cima, atrás da orelha, onde sítio onde nem se consegue ver se ela se porta bem ou mal, o que em última análise, é mais um motivo para desconfiar.

ANDAR À MAMA

Outra expressão que, para grande desgosto nosso, não pode ser inteiramente tomada à letra. Pois se, andar aos caídos ou andar aos papéis designam efectivamente uma actividade, andar à mama não designa nada de nada!

Seja o que for que a alma iluminada que inventou esta expressão quisesse dizer com isto, andar à mama nunca poderia ser sinónimo de não fazer nada, isto porque, no que toca a mamas (e tirando as maternais) ninguém dá nada a ninguém. Logo, para ter mama (mesmo quando elas parecem oferecidas) só pagando, o que implica ter dinheiro, o que implica ter trabalho para o ganhar. Corolário: para ter mama é preciso trabalhar. Voilá!

E não vamos deixar de ter em mente que, tirando certas aberrações da natureza, ninguém nasce com uma só mama. Elas costumam vir aos pares. Donde resulta que a expressão nem é correcta nem está escrita em bom português, devendo ser “andar às mamas”.