27.3.11

AINDA A PROCISSÃO VAI NO ADRO

Embora utilizada como sinónimo de algo que ainda está no começo, se as pessoas pararem um minuto para pensar (sim, eu sei que é muito), vão chegar, mais uma vez, à conclusão que esta é uma frase feita que não tem nada de especial.

Por definição da Grande Enciclopédia Universal, "adro" é o terreno aberto ou murado em frente ou à volta das igrejas.
Ora, se ele é murado, é bom de ver que a procissão nunca chega a sair do adro, pelo que não faz sentido dizer que ela ainda ali vai.
Se, por outro lado, o adro é aberto e a procissão ainda ali vai, das duas uma: ou já saiu tarde e a culpa será do padre que esteve entretido a fumar uma beata ou porventura do sacristão que não apresentou o andor a tempo e horas; ou saiu à hora mas ainda vai no adro porque os fiéis não têm mais o que fazer e arrastam os pés vagarosamente, talvez porque a maioria dos peregrinos tenham problemas de artrite reumatóide.

Em qualquer dos casos, como se vê, a expressão em si mesma não informa nada de relevante.

7.3.11

ACORDAR COM OS PÉS DE FORA

Esta é, passe o pleonasmo, uma expressão sem pés nem cabeça. Por um lado, acordar significa, a maior parte das vezes, conciliar, estar de acordo ou resolver de acordo – então, o que raio é estar de acordo com os pés de fora??? É dar um aperto de mão, fazendo figas atrás das costas?

Por outro lado, se se entender acordar como sinónimo de despertar, então estaremos a abrir a pestana com os pés de fora porquê? A manta carece de comprimento? A cama é curta face ao tamanho dos presuntos? E porquê acordar com os pés de fora e não com outra qualquer parte do corpo? Quem dorme com os pés para o lado da cabeça, acaso corre o risco de acordar com a cabeça de fora? E se o fizer, será que não teve motivos para isso?

Em conclusão, esta é uma expressão que devia levar com os pés e ficar fora da língua portuguesa.

A VERDADE, TAL COMO O AZEITE, VEM SEMPRE AO DE CIMA

O primeiro aspecto que importa corrigir nesta farsa que tem sido passada de geração em geração, é que nem só a verdade e o azeite vem ao de cima. Outras coisas, como o preço dos combustíveis, o vómito na garganta do bêbado ou a saia da Marilyn Monroe sobre a grelha do metro, apenas para citar alguns exemplos, vêm também ao de cima sem andarem constantemente a serem mencionados.
O segundo aspecto a corrigir, é a difusão de que o primado da verdade está acima de todos os outros. Ora este é um conceito perigoso se levado demasiado à letra – é que verdade traz consigo conceitos como o da honestidade ou o da ética, bastante difundidos até meados do século passado, mas que, hoje em dia, estão bastante ultrapassados.

Coitada da sociedade onde os cidadãos esperem apenas a verdade, se regulem com honestidade e se rejam com ética. Será uma sociedade condenada a acreditar em mistificações absurdas como, por exemplo, o conceito de justiça!

Tenhamos piedade de um povo assim.

27.2.11

A PENSAR MORREU UM BURRO

Mas será que ninguém vê a vacuidade desta expressão?
A quem será que interessa saber como morreu o burro, senão ao médico legista? Em que é que essa informação contribui mais para a felicidade de um cidadão do que, por exemplo, saber a taxa de fecundidade dos organismos unicelulares?

Segundo ponto: os burros não possuem formas específicas de morte só pelo facto de serem burros. Tal como os humanos, e há casos de espécimes que acumulam as duas naturezas, um burro tanto pode morrer a pensar, como a dormir, a comer ou a conduzir em contra-mão no IP5.

Terceira questão: esta é mais de carácter filosófico mas, será mais digno um burro que, apesar de o ser, morre a pensar ou um pensador que morre por fazer uma burrice? Esta é uma questão que deixo à meditação do leitor, para que se perceba o quanto estas expressões, ditas populares, podem ser enganadoras no seu sentido. Se não servir à meditação, espera-se mesmo assim que esta questão sirva como indutora de sono para quem não o tem.

A MONTANHA PARIU UM RATO

Sendo as “pedras parideiras”, comuns na serra da Lousã, o único fenómeno geológico cientificamente comprovado que faz nascer pedras, esta expressão é uma clara fraude imposta às nossas crianças.

Veja-se como ela é absurda, até de um ponto de vista matemático: diz-se que a montanha pariu UM rato e não uma ninhada, que é a forma natural de nascimento destes roedores. Logo, para parir uma quantidade de ratos suficiente para abastecer os laboratórios de investigação de todo o mundo, imagine-se a cordilheira de montanhas que não seria necessário! Outra questão por explicar: se a montanha pare um rato, quem ou quê pare as ratas?

Para lá de todo este embuste linguístico, pretende-se também fazer crer que a expressão é sinónimo de algo que promete muito, acabando por produzir pouco resultado. Ora, um rato, não é sinónimo de pouco – veja-se o caso do rato Mickey, hoje por hoje, uma das maiores fortunas da indústria do entretenimento.

20.2.11

A CONVERSA NÃO CHEGOU À COZINHA

Impõe-se perguntar: mas não chegou, porquê? A cozinha é muito longe? É à prova de som?

Desde logo o senso comum contradiz esta expressão: por um lado, se as conversas são como as cerejas, então o lugar mais natural para elas estarem será na cozinha; por outro, conversa é sinónimo de cavaqueira, palavreado, conversação, também conhecida como a nobre arte de dar à língua, desde tempos imemoriais praticada pelas mulheres, cujo lugar natural de exercício de cidadania é, lá está!, a cozinha. Chegamos assim à conclusão oposta daquela que a expressão pretende fazer crer, ou seja, a conversa já está na cozinha!

De resto, e por exclusão de partes, verifica-se que a conversa não deverá estar noutras divisões da casa: no quarto de dormir serão de adoptar os gemidos/gritos; na casa-de-banho usam-se os sons guturais condizentes com a disposição do intestino ou, quando muito, canta-se no chuveiro; na sala de estar, telenovelas e jogos do Benfica não admitem conversas frente ao televisor. Resta a cozinha.

A COISA ESTÁ A FICAR (FEIA/PRETA)

Esta expressão é tão falha de objectividade que deveria, desde logo, ser banida da língua portuguesa.
Será que a coisa fica preta por falta de higiene? Será que dizer que a coisa fica preta, como sinónimo de algo que vai mal, não denota uma tendência racista? Tudo o que é preto é mau? Então e o Eusébio? E o bolo do caco da Madeira?
Por outro lado, se a coisa está a ficar feia isso pode apenas ser um sinal de envelhecimento. É consensual que, com o avançar da idade, não vamos ficando mais bonitos, o que tornaria esta expressão numa máxima de La Palice, ou seja, a constatação do óbvio, não tendo valor de per si e não valendo mais do que um bordão de conversa mole, se quisermos, uma muleta, senão mesmo, uma canadiana.
Sendo canadiana, elimine-se pois da língua portuguesa.

* EDITORIAL

Caro cibernauta,
Já alguma vez pensou naquelas expressões que se dizem diariamente sem, no entanto, ter consciência daquilo que está a dizer?

Se não pensou, devia. Porque geralmente, estará a dizer asneiras.
Felizmente, decidi elucidá-lo para que mais ninguém o chame de asno, dissimuladamente. Veja-me como um paladino da causa "anti-expressões idiomáticas", que mais não são do que versões ignóbeis e preguiçosas de uma afirmação, que apenas revelam a falta de esforço intelectual de quem as profere.

Enfim, poderão também significar outras coisas, mas se espera que eu me vá debruçar sobre elas...pode tirar o cavalinho da chuva.