20.2.11

A CONVERSA NÃO CHEGOU À COZINHA

Impõe-se perguntar: mas não chegou, porquê? A cozinha é muito longe? É à prova de som?

Desde logo o senso comum contradiz esta expressão: por um lado, se as conversas são como as cerejas, então o lugar mais natural para elas estarem será na cozinha; por outro, conversa é sinónimo de cavaqueira, palavreado, conversação, também conhecida como a nobre arte de dar à língua, desde tempos imemoriais praticada pelas mulheres, cujo lugar natural de exercício de cidadania é, lá está!, a cozinha. Chegamos assim à conclusão oposta daquela que a expressão pretende fazer crer, ou seja, a conversa já está na cozinha!

De resto, e por exclusão de partes, verifica-se que a conversa não deverá estar noutras divisões da casa: no quarto de dormir serão de adoptar os gemidos/gritos; na casa-de-banho usam-se os sons guturais condizentes com a disposição do intestino ou, quando muito, canta-se no chuveiro; na sala de estar, telenovelas e jogos do Benfica não admitem conversas frente ao televisor. Resta a cozinha.

A COISA ESTÁ A FICAR (FEIA/PRETA)

Esta expressão é tão falha de objectividade que deveria, desde logo, ser banida da língua portuguesa.
Será que a coisa fica preta por falta de higiene? Será que dizer que a coisa fica preta, como sinónimo de algo que vai mal, não denota uma tendência racista? Tudo o que é preto é mau? Então e o Eusébio? E o bolo do caco da Madeira?
Por outro lado, se a coisa está a ficar feia isso pode apenas ser um sinal de envelhecimento. É consensual que, com o avançar da idade, não vamos ficando mais bonitos, o que tornaria esta expressão numa máxima de La Palice, ou seja, a constatação do óbvio, não tendo valor de per si e não valendo mais do que um bordão de conversa mole, se quisermos, uma muleta, senão mesmo, uma canadiana.
Sendo canadiana, elimine-se pois da língua portuguesa.

* EDITORIAL

Caro cibernauta,
Já alguma vez pensou naquelas expressões que se dizem diariamente sem, no entanto, ter consciência daquilo que está a dizer?

Se não pensou, devia. Porque geralmente, estará a dizer asneiras.
Felizmente, decidi elucidá-lo para que mais ninguém o chame de asno, dissimuladamente. Veja-me como um paladino da causa "anti-expressões idiomáticas", que mais não são do que versões ignóbeis e preguiçosas de uma afirmação, que apenas revelam a falta de esforço intelectual de quem as profere.

Enfim, poderão também significar outras coisas, mas se espera que eu me vá debruçar sobre elas...pode tirar o cavalinho da chuva.